quarta-feira, 18 de abril de 2012

Oswaldo Montenegro - Metade

Um comentário:

  1. Metade

    Oswaldo Montenegro

    Que a força do medo que tenho
    Não me impeça de ver o que anseio

    Que a morte de tudo em que acredito
    Não me tape os ouvidos e a boca
    Porque metade de mim é o que eu grito
    Mas a outra metade é silêncio.

    Que a música que ouço ao longe
    Seja linda ainda que tristeza
    Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
    Mesmo que distante
    Porque metade de mim é partida
    Mas a outra metade é saudade.

    Que as palavras que eu falo
    Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
    Apenas respeitadas
    Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
    Porque metade de mim é o que ouço
    Mas a outra metade é o que calo.

    Que essa minha vontade de ir embora
    Se transforme na calma e na paz que eu mereço
    Que essa tensão que me corrói por dentro
    Seja um dia recompensada
    Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

    Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

    Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
    Que eu me lembro ter dado na infância
    Por que metade de mim é a lembrança do que fui
    A outra metade eu não sei.

    Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
    Pra me fazer aquietar o espírito
    E que o teu silêncio me fale cada vez mais
    Porque metade de mim é abrigo
    Mas a outra metade é cansaço.

    Que a arte nos aponte uma resposta
    Mesmo que ela não saiba
    E que ninguém a tente complicar
    Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
    Porque metade de mim é platéia
    E a outra metade é canção.

    E que a minha loucura seja perdoada
    Porque metade de mim é amor
    E a outra metade também.

    ResponderExcluir